Eu me lembro da primeira vez em que ele me chamou de Paty. Meu coração disparou, mas tive que manter a calma, respirar fundo e continuar meu trabalho. Disfarçar a emoção como se fosse uma pessoa qualquer mostrando intimidade. Não era uma pessoa qualquer. Por isso não esqueço.
Lembro-me daquela noite. Fiquei tão feliz ao vê-lo com um presente meu. Na mesma noite, tão doce, beijou pela primeira vez a minha mão. Nessa época estava sozinho, mas não acreditei que haveria alguma possibilidade... fiquei distante. O "e se" sempre esteve aqui, escondido em meio as recordações. Por isso não esqueço.
E aquele abraço. Eu sempre me lembro. Aquele 11 de setembro de 2005. O momento mais emocionante. Durou tão pouco, mas foi tão forte. Nossos corpos se tocando, perfeitamente unidos. Meu coração dispara cada vez que penso nesse instante. Foi quando eu tive certeza de que o que eu sentia era de verdade. Por isso eu não esqueço.
O primeiro encontro após aquelas mensagens. A frieza no beijo, os olhos que não se encontraram, o nervosismo. Mãos trêmulas. Nunca foi tão difícil ser forte perto das outras pessoas, pra não mostrar minha vergonha, minha frustração, meu amor recolhido. A imagem dele, encostado na parede, como se eu não estivesse ali. Insurportável. Por isso não esqueço.
O outro abraço. Odeio lembrar. De novo pela frieza. As noites mais especiais foram tão tristes, tão vazias. A rejeição, o silêncio, a indiferença. E eu obrigada a fingir uma falsa felicidade. O abraço é a lembrança de um momento que resumiu a maior decepção que podia ter. Por isso não esqueço.
Aquela sexta-feira. Às vezes esqueço de lembrar desse dia. Sem nenhum motivo ele me disse, naquela manhã, que tinha comprado um presentinho pra mim, um pão-de-mel, mas esqueceu dele. Já foi o suficiente pra me fazer feliz. Não imaginava que ele tornaria meu dia perfeito, quando voltou à tarde somente pra trazer o presente. Aconteceu tudo de forma tão natural. Foi o dia em que vi que nossa amizade era real, e que eu podia ter esperanças de tê-lo pra sempre na minha vida. Por isso não esqueço.
E a lembrança daquela outra sexta-feira, o dia em que conversamos pela primeira vez, cara-a-cara sobre nós dois. O dia em que falei dos meus sentimentos. Mas não disse toda a verdade. Menti pra parecer mais forte. Fingi sofrer menos, sonhar menos, desejar menos. Ainda assim foi o dia em que fui mais transparente. Que permiti que ele visse quase tudo o que a sua existência provoca em mim. E fiquei aliviada. Por isso não esqueço.
Aquela madrugada de carnaval deste ano. Eu me lembro o tempo todo. Nos encontramos longe do nosso mundo, em condições completamente diferentes. E acreditei que fosse minha oportunidade. Que Deus estava dando a minha chance. E agi como nunca imaginei que poderia. E foi vergonhoso. O que Deus fez, naquela noite, foi me dar forças pra suportar a situação constrangedora que criei e sair dela com dignidade. Mas foi nessa situação, nesse erro, nessa madrugada, que me perdi, e não mais encontrei o caminho para nós. Eu o perdi. Por isso não esqueço.
Adiei nosso último encontro, que aconteceu há seis dias, porque não queria essa lembrança. Por todas os acontecimentos desses quatro anos de amor, esse dia ia chegar. O último. Evitei-o, tentando criar o momento ideal. Não consegui. E imaginei muitas coisas pra fazer, pra dizer, mas não foi assim. O nosso último dia, nossa despedida aconteceu sem emoção. Pelo menos evidente. Por dentro eu sentia meu coração queimando, machucado. Por fora, fiz o possível pra não transparecer nenhum sofrimento. E ele? Acho que não se deu conta, assim como todos os outros momentos, que era um acontecimento especial. O surgimento de mais uma lembrança. Essa última, a mais triste, porque já sabia que depois desse momento, eu teria que obrigar a desamá-lo. Pra não morrer por dentro. Por isso não esqueço.
Tenho tantas lembranças, de momentos bons e ruins, mas sei que não é especial, porque ele não se lembra. As recordações são só minhas. Nós dois. Não sei se compartilhamos alguma delas. Não acredito que qualquer lembrança emocionante da minha memória, tenha sido importante pra ele. Por isso não esqueço que preciso deixá-lo ir. Que eu preciso ir. Ainda que todas essas lembranças reforcem o meu pensamento de que é ele o meu grande amor. E que não serei capaz de viver e sentir tudo isso por mais ninguém.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
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